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Quando a erva crescer em cima da minha sepultura, Seja este o sinal para me esquecerem de todo. A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela. E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde sobre a minha sepultura, Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural (F. Pessoa)
Sempre me inquiri muito sobre o fato de haver apenas duas situações na vida que uma família se reúne de forma a congregar um maior número de pessoas: Casamento e Morte.
Ao mesmo tempo sempre achei uma situação muito parecida com a outra. Quando casamos não morremos de uma vida para passarmos a outra? E não é o que ocorre na morte do corpo? A respeito dessa incerteza deixo as considerações a encargo do leitor. De qualquer modo, essas duas situações da vida têm muitas coisas em comum. Ambas necessitam de um rito de passagem.
Alguns casais, ao contraírem "matrimônio", estão preferindo dispensar esse rito justamente para anular o efeito que este causa em si próprios e em seu meio social, ou seja, o de demarcar uma linha divisória entre o antes e o depois de casados. E essa linha divisória só passa a ter significado se houver a testemunha dos que assistem. Não é a toa que o casamento no civil e no religioso necessita de testemunhas e padrinhos. Sua função é justamente essa, a de testemunhar, dar peso, dar crédito e veracidade ao fato pela existência do outro, externo ao casal, de forma a não se poder refutar, desmentir que houve o casamento. Com as devidas ressalvas, ao prescindirmos do rito viabilizamos maior irresponsabilidade. Também evitamos as brincadeiras: agora é que eu quero ver, meu caro!, você nem sabe onde se meteu!, você não pode dizer que não avisei!, etc.
E a morte? O que há no rito do funeral? Comunicamos aos nossos semelhantes o fato, damos o atestado de óbito pela exposição do cadáver publicamente, facilitamos a informação: de tal a tal hora o morto fica sendo velado para posterior funeral. Por motivos óbvios, em nossa cultura ninguém dá esse tipo de informação sem a certeza do fato, de forma que apenas a comunicação é o suficiente para nos tornar ciente dele, mas a pessoa que não participa sempre quer saber mais: quem estava presente? a que horas saiu o enterro? como estava a aparência do morto? etc. As "carpideiras" denunciavam a perda lamentável daquela vida. Foi-se, choremos. Os comentários também aparecem: era uma pessoa tão boa, é uma perda e tanto! como que fulana vai ficar sem ele agora? será que ele deixou alguma coisa para ela sobreviver? partiu para uma melhor! descansou.
Mas há uma diferença fundamental: no primeiro caso a morte é simbólica e imediatamente substituída por uma nova forma de vida de tal forma que a pessoa continua a conviver conosco, podemos partilhar momentos, fazer história com ela para termos (boas ou más) recordações em nossas vidas, agora com novos elementos em jogo. Já no segundo caso, a morte real - para os que partilham de minha crença - a substituição de uma vida por outra também se dá, porém transcende do campo físico para o metafísico ou espiritual.
Assim como nenhum solteiro pode dizer de uma experiência de um casamento de acordo com a tradição, nenhum de nós pode saber o que seja a nova vida que nos espera após a morte. E é esse todo o cerne do problema pois o desconhecido nos provoca pânico. Como diz o poeta, todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer.
Aproveitamos a vida de solteiro e então casamo-nos pois acreditamos que seja melhor. Se não fazemos a escolha certa refazemos nossas vidas desatando os laços. Mas não há divórcio na morte. Não podemos negociar com ela. Ela vem, nos assalta tal como a paixão que decide por nós, mas não dá um crédito para um retorno. E Fernando Pessoa nos propõe uma boa forma de lidar com essa angústia.
Pedro Gobett - psicólogo - plgobett@zipmail.com.br
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