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   Repensando a Vida

         Caro leitor, talvez você possa achar este texto um pouco pesado e sem graça, mas ele foi desenvolvido para responder às inúmeras pessoas que frequentemente me perguntam: como é trabalhar na funerária? O que você pensa da morte? Você tem medo de ir aos velórios? O assistente social faz algum curso preparatório para enfrentar esta realidade?.

        Quando comecei a exercer a profissão de assistente social no setor funerário, há cinco anos atrás, e sendo esta a minha primeira experiência profissional sem supervisão alguma, deparei-me com uma grande crise de auto-compreensão sobre o sentido da morte e da minha morte.

         Nunca tive curiosidade de visitar velórios ou frequentar cemitérios. Quando pensava na morte esporadicamente, ela me parecia algo muito distante, alheia a mim. Hoje posso compreender um pouco melhor o meu “eu” neste contexto todo. - A questão “morte” sempre esteve presente na minha vida; não pensar nela não fez com que eu tivesse menos medo de encará-la. O desconhecido nos faz fantasiar, e a morte para cada ser humano tem uma razão individual de ser . Todas às vezes que evitava os velórios, justificando que se tratava de um lugar muito triste, ou que não gostava de presenciar as pessoas chorando, na realidade eu estava fugindo! Fugindo da idéia transparente de que eu também irei morrer, sem saber como, nem quando, mas que também eu, com os meus defeitos e virtudes, com minhas certezas e dúvidas deixarei de existir como todos os outros seres humanos.

         Já de início, nos meus primeiros meses de trabalho, embora relutante, sugeri aos meus diretores que as visitas aos velórios para assessoria às famílias e avaliação do serviço prestado, seriam muito válidas. Desde então esta tem sido uma das minhas atividades matinais, estar próxima da morte e daqueles que passaram a conviver com ela.

         Neste momento percebi que antes de realizar esta intervenção de grande responsabilidade e comprometimento, durante e pós óbito, primeiramente eu precisaria trabalhar a mim, estruturar –me, superar os meus próprios tabus.         

         O processo foi gradativo e lento, acredito que ele ainda esteja acontecendo, que faça parte da minha infinita aprendizagem. A morte foi-se mostrando aos poucos para mim; ela não seleciona, não julga, não se arrepende, não espera, simplesmente acontece; o contato direto com ela, numa realidade nova e extremamente desconhecida por mim ( nunca me imaginei trabalhando nesta área), impulsionou-me a repensar a vida.

         Não estou afirmando aqui que desvendei os mistérios e entendi a morte, não é isso, na verdade o fato de passar a ter consciência da efemeridade da minha existência, na qual o amanhã pode ser o fim, passou a despertar em mim a certeza de que a minha vida, esta que eu estou vivendo hoje, que faz parte da minha realidade concretamente, é única, irrecuperável, importantíssima e pessoal.

         Independentemente da questão fé/ religião, que nos dá várias alternativas de esperança quanto à vida pós morte, pus-me a valorizar os meus momentos, a fazer valer a pena cada dia, cada palavra, cada atitude, como se esta vida limitada que eu tenho nas mãos fosse o meu maior presente e dependesse exclusivamente de mim.

         Perder alguém ou trabalhar a perda de alguém continua sendo imensamente doloroso, mas cada vez que ela se faz presente como ruptura angustiante e sem solução, é para a vida que a morte me remete, para o sentido da minha existência, para o meu crescimento enquanto ser humano.

         Hoje, dizer que não tenho receios, ou que a morte deixou de ser um enigma para mim seria inadequado, mas acredito que a proximidade com ela, proporcionou não só a mim , mas também às minhas colegas assistentes sociais do setor funerário, maiores condições de orientar, assistir e incentivar os usuários das nossas empresas que sofrem pela perda do ente querido a refletirem a própria vida, a se encorajarem em enfrentar as perdas, a também valorizarem cada momento - já que, como todos dizem, estamos aqui de passagem, que possamos nos eternizar também nesta vida, vivendo amplamente.

Kety Cristina Boralli
Assistente Social do Grupo Unidas de Piracicaba






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