Tente explicar a uma criança o que é
''nunca mais''. Use toda a
criatividade, dê exemplos. Diga a ela que nunca mais verá o cachorrinho que
tanto gostava. Ou que a vovó nunca mais vai voltar. É bem provável que ela
afirme que entendeu tudo - e, ainda assim, continuem falando deles como se
pudessem entrar pela porta a qualquer instante. Para os pequenos,essa estranha
medida de tempo é incompreensível enquanto não for vivida na pele
dia após dia. Esse tem sido o aprendizado de Vittória, 4 anos, nos últimos
dois anos, desde que o pai, o empresário paulista Ayrton Bruzetti, foi
buscá-la na escola com a seguinte frase: ''Querida, olhe para mim. Mamãe
morreu!''.Ele havia acabado de chegar do enterro da mulher, que falecera por
complicações cardíacas uma semana depois de dar à luz a segunda filha,
Isabella. ''Procurei falar a verdade, apesar de saber que, naquele momento para
ela, nada fazia muito sentido'', conta Ayrton.
A forma como a criança compreende e lida com a morte depende muito da idade
e da maturidade. Em geral só por volta dos 9 anos ela começa a ter uma
percepção mais completa do que isso significa: poderá entender que qualquer
um está sujeito à morte, que ela é irreversível e independe da vontade das
pessoas. ''Essa noção confusa, no entanto, não impede que sinta profundamente
a dor da perda'', afirma a psicóloga Maria Helena Bromberg, de São Paulo.
''Crianças também ficam enlutadas, embora muitas vezes, expressem seu pesar de
um jeito diferente'', diz.
Na tentativa de proteger os filhos, ou por achar que a morte é um assunto
que não faz (ou pelo menos não deveria fazer) parte do universo infantil,
muitas famílias simplesmente os excluem no momento de luto.Afastam-nos da
movimentação da casa, não falam do que está se passando e até evitam chorar
na frente deles.
Segundo os psicólogos, atitudes como essas podem ser prejudiciais por dois
motivos. Primeiro, porque impedem que a criança assimile o que está
acontecendo, aumentando a dificuldade para superar a dor da perda; segundo,
porque só agravam a angústia, já que omitir a tristeza é uma tarefa que
beira o impossível. ''Eu percebi que havia algo mais sério só de olhar para
minha mãe'', conta Mariluz, 11 anos, que no final do ano passado recebeu pela
primeira vez uma notícia de óbito: Raquel, a motorista da perua que a levava
para a escola, muito querida pelas estudantes, havia falecido após um ataque
cardíaco. Logo, que foi informada, a mãe, a pedagoga Maria Cecília Ricón,
ficou sem saber como comunicar o falecimento à filha. Disse primeiro que Raquel
havia sido internada. ''Acho que ela podia ter contado na mesma hora'', lembra
Mariluz. ''Mas eu entendo por que ela fez sso. É difícil de explicar
mesmo.''
Chorar faz bem
O constrangimento diante da morte é uma atitude típica dos adultos
O constrangimento diante da morte é uma atitude típica dos adultos - e
especialmente da cultura ocidental moderna, que a afastou cada vez mais para o
ambiente asséptico e impessoal das UTIs, longe do convívio familiar.
Antigamente, morria-se em casa, velava-se o corpo em casa e os rituais fúnebres
não eram abreviados, o que, de certo modo, tornava a morte mais natural, uma
parte do ciclo da vida, e menos difícil de assimilar. Hoje, viver o luto
ficou tão complicado que já existem vários centros de apoio especializados no
assunto. Um deles é o Laboratório de Estudos sobre o Luto (Lelu), da PUC de
São Paulo, coordenado por Maria Helena. ''O objetivo do nosso trabalho é
ajudar as pessoas a expressar a sua dor'', explica ela.
Até por volta dos 7 anos, os pequenos fazem perguntas sobre a morte, mas
dificilmente existe angústia em seu comportamento. ''Não há por que amenizar
essa idéia para eles'', diz Maria Helena. '' A palavra correta é morrer e não
se deve ter medo de pronunciá-la''. Usar eufemismos como ''papai está no
céu'', ''vovô vai dormir para sempre'' ou ''Deus levou seu irmão'' só
confunde as crianças, que costumam entendê-los de forma literal. Afinal, por
que não pegar um avião para visitar o papai? Por que o vovô não acorda? Se
eu me comportar, será que Deus traz meu irmão de volta? Rodrigo, 5 anos,
queria saber como é o céu, e o que sua mãe falecida há um ano, tanto fazia
por lá. ''Mas eu só vejo nuvens'', insistia com o pai, o gerente financeiro
Paulo da Silva, de São Paulo. ''Ele perguntava pela mãe o tempo todo e, por um
longo período, ficou revoltado'', conta Paulo. ''Aos poucos consegui explicar
que a mãe não morreu porque quis e que ainda tínhamos um ao outro. Hoje
estamos bem mais próximos.''
''Um avião caiu''
Como não tem maturidade para entender a tristeza que sentem, as crianças
expressam seu pesar de outras formas.É comum que depois de uma perda apareçam
distúrbios de sono, xixi na cama, problemas na escola, hiperatividade, medos e
até raiva da pessoa que se foi. ''Elas não choram o tempo todo e nem deixam de
brincar'', diz a psicóloga Maria Júlia Kovács, da Universidade de São Paulo.
''Esse comportamento confunde os adultos, que nem sempre o interpretam como
sinal de tristeza e acabam repreendendo a criança, que, na verdade, pode
precisar de ajuda.''
Em 1996, Cássio tinha 5 anos quando recebeu uma estranha notícia. ''Um
avião caiu hoje'', começou a mãe, a administradora Maria Guiomar Vieira. O
pai do garoto, Carlos Vieira, foi uma das vítimas do acidente com o vôo 402 da
TAM. ''Ele não chorou, mas ficou pálido'', lembra Guiomar. Nos meses
seguintes, Cássio foi se tornando mais reservado e, algum tempo depois, passou
a apresentar dificuldades na escola. ''Ele não demonstrava vontade de aprender
a ler, dizia que não queria pensar. Ficava andando pelo colégio, sem interesse
por nada.'' Cássio estava com depressão. ''Com a ajuda de psicólogos e da
escola, consegui fazer com que falasse de suas aflições e superasse a dor'',
conta.
Embora nem sempre seja consciente, um sentimento de culpa costuma atingir as
crianças que perdem alguém importante. Em uma pesquisa com meninos e meninas
de 3 a 6 anos, a psicóloga Luciana Mazorra, da PUC de São Paulo, descobriu que
todos se sentiam um pouco responsáveis pelo acontecimento. ''Nessa idade, os
pequenos acreditam que são o centro do mundo e têm influências sobre as
coisas à sua volta'', diz Luciana. ''Para eles, há lógica em achar que
alguém morreu por causa de algo que disseram, fizeram ou até desejaram.''
Falar claramente sobre a morte, se possível antes que ocorra na família, é
uma das melhores formas de evitar essas fantasias, aconselham os especialistas.
Crie oportunidades para que a criança faça perguntas e responda a todas com
sinceridade. ''Pouco a pouco ela monta o quebra-cabeça'', afirma Luciana. Evite
também tirá-la da própria casa ou alterar a rotina. ''A escola, os amigos e o
ambiente familiar são apoios importantes, e mais uma mudança só vai piorar a
situação'', explica. Incentive-a a expressar os sentimentos, preste atenção
no que diz e, principalmente, não tenha medo de chorar na frente dela. ''Pais
que escondem o sofrimento passam a mensagem de que o filho deve fazer o mesmo'',
alerta a psicóloga. Mantenha fotos e outras lembranças da pessoa que morreu
para estimular conversas sobre a morte com a criança.É por meio de sinais como
esses que ela percebe a continuidade da vida - e descobre que o luto, por mais
dolorido que seja, pode se revelar importante no processo de crescimento.
Aline Angeli
Revista Claudia