Uma criança não é capaz de entender
o conceito de morte antes dos dois anos e meio ou três. Mesmo brincando de
matar ou vendo outras crianças matando formigas, moscas ou besouros, não
associará essa destruição à morte.
Só terá significado para ela quando
alguém em especial de repente vai embora, mesmo que já tenha três anos. Aí
ficará consciente do conceito de morte e reage a isso com uma porção de
perguntas como: “O que é morrer?”, “Para onde o vovô foi?” ,“Onde
ele está agora?”, “Ele vai voltar?”, “Você pode fazer ele viver agora?”,
“Quando você vai morrer?”, “Quando eu vou morrer?”, “Não quero
morrer!”. Às vezes não são com pessoas mas com animais ou plantas. “Por
que não endireitamos essas florzinhas?” “Por que o médica não pode
endireitar o meu cachorrinho?” “Par onde ele vai agora?”...
As respostas são difíceis para
adulto, mesmo porque não é fácil encarar essa realidade. Para cada pessoa o
conceito de morte é visto de maneiras diferentes perante a religião, e se essa
criança não estiver engajada à religião dos pais no momento de querer
descobrir sobre a morte ficará tudo muito confuso para ela, podendo gerar
conflito e angústia a esse respeito. Ser coerente, sincero e firme nas
respostas é mostrar segurança diante de um acontecimento natural e triste por
não ver mais a pessoa falecida, e que essa é uma das perdas mais difíceis de
retornar.
Os pais que encontraram dificuldade em
lidar com o problema da morte e se reservam evitando responder as perguntas
deixam a criança aflita, ela quer compreender a sua curiosidade, pois vê a
morte em termos concreto e não abstrato. Ela não entende que a pessoa que fez
certas coisas não pode mais estar ali. Por isso responder as perguntas sem
evitá-las vai aliviar os sentimentos dela. A criança vê os pais com muita
força e autoridade, e esses têm que ter muita força para vencer a dificuldade
em aceitar a morte e tentar esclarecer diante de seus próprios sentimentos as
dúvidas do filho, pois quando não consegue a criança se sente insegura.
Mostrar a tristeza na falta de alguém
querido é bom para ela experimentar esse momento, isso a ajuda a dar valor à
vida. Caso contrário, poderá mais tarde mostrar alguns distúrbios dessa
tristeza reprimida, e o adulto passará que aquela pessoa não era tão
importante e nem deixará saudades, se a criança sente o oposto.
É importante que evite comparar a
morte com o sono, ela poderá ter medo de dormir ou ter pesadelos.
Quando a criança começa a compreender
a morte ela imagina que seus pais vão morrer e a deixarão sozinha. Se ela
perguntar: “Quando você vai morrer?”, é certo responder: “Só vou morrer
daqui a muito, muito, muito....tempo”. Esticando o muito dará a idéia de que
sua morte não será agora, e você não negou que ela vai ocorrer. E fale a
mesma resposta se ela perguntar quando ela vai morrer.
Quando a morte acontecer, por exemplo,
com seu cachorrinho, ou algum animal de estimação, reconheça os sentimentos
da criança pois não seriam diferentes se fosse a perda de uma pessoa. Não
jogue o animal no lixo, ou compre outro no dia seguinte, isso dará a idéia de
que você não tinha o menor sofrimento pela morte do animalzinho de estimação
da criança. Deixe ela decidir o que fazer com o animal ou encontre um lugar com
ela para enterrá-lo, coloque um sinal ou flores para demonstrar sua afeição.
Há muitos pais que ficam sem saber o
que fazer quando alguém da família morreu, como levar a criança no enterro,
por exemplo. Vai depender muito da idade e da informação que essa criança tem
sobre a morte. Se for muito pequena, antes dos três anos, ela não entenderá
ainda o que será aquilo. Poderá ficar traumatizada vendo pessoas chorarem ou
terem reações histéricas. O pior seria ver a pessoa conhecida dentro do
caixão sendo fechado e baixado para cova coberto de terra.
Depois dos 6 anos, quando tomar
consciência melhor de morte, ela pode presenciar uma tristeza “moderada” no
velório, da morte de alguém conhecido e querido pela família, mas
certificando-se antes de que não tem pessoas chorando demasiadamente e
permanecer pouco tempo, sem levá-la ao enterro, cabe aos pais saber se a
criança necessita esclarecer sua curiosidade mesmo que já tenha sido
orientada.
O trauma com certeza será grande se
ela souber depois da ausência da pessoa e de não ter vivido a tristeza e o
acontecimento no dia. As fantasias serão perturbadoras, ficará para ela a
fantasia de que o enterro nunca existiu e esperando a pessoa falecida voltar.
O maior problema é a morte de um dos
pais, é um momento trágico para qualquer pessoa. Independente da sua idade,
eles representam para a criança amor e proteção, e essa perda com certeza
gera um conflito na vida dela. Nada fará diminuir o trauma, sentirá que foi
abandonada pela pessoa morta, ela imagina que a pessoa desejou morrer, isso gera
muita raiva, ou culpa se estiver no momento de sua vida onde acha que seus
desejos podem ser realizados e ter desejado que a mãe ou o pai fossem embora ou
morresse, quando por exemplo foi castigada.
A criança terá a preocupação
daquele que ficou, de morrer também. Se a morte foi após uma doença,
tranqüilize-o dizendo que está bem de saúde. Se foi causada por um acidente
diga que entende sua preocupação em proteger e evitar que aconteça também
com quem ficou. Seria importante um acompanhamento psicológico em qualquer
hipótese.
Evite falar para a criança que logo
vai se sentir melhor e esquecer da pessoa que morreu, mesmo porque, sempre se
lembrará e talvez queira falar sobre isso outras vezes e dar-lhe liberdade para
conversar sobre a morte é dar liberdade em falar sobre seus sentimentos.
É importante reconhecer e compreender
os sentimentos de perda e compartilhar a dor. Embora haja pais que queiram
afastar todos os objetos da pessoa falecida, é melhor guardar algumas coisas
como recordações, assim seu filho dará importância à vida. Sentirá que
quando alguém morre não será esquecido e sim lembrado com muitas saudades.
Portanto, protegendo a criança da
existência da morte, provavelmente ela encontrará dificuldades em lidar melhor
com as perdas que a vida pode lhe dar, gerando assim distúrbios emocionais,
muitas vezes sérios e irreversíveis.
Rosângela Maria Bonato Olmos
Psicóloga Clínica.