O assistente social não deve ser o profissional responsável por resolver os
problemas dos empregados de uma empresa ou elo de ligação entre a chefia e os
trabalhadores. Sua postura deve ser mais ampla e abordar não só as relações
e valores dos funcionários mas também as estratégias e objetivos da
corporação, fazendo com que ambas as partes caminhem lado a lado na busca pelo
desenvolvimento da empresa. A assistente social e consultora organizacional
Jorgette Leite Lemos, esteve em Bauru esta semana para ministrar uma palestra
sobre o tema, com título: "Gestão Empresarial do Serviço Social nas
Organizações Empresariais" e falou com o Jornal da Cidade. A palestra fez
parte do "II Encontro de Gestores da Assistência Social da Região Centro
Oeste Paulista", promovido pela Faculdade de Serviço Social da
Instituição Toledo de Ensino (ITE).
JC - Que temas abordou exatamente a sua palestra sobre a estratégia do
Serviço Social nas empresas?
Jorgete - A nossa preocupação maior era estar discutindo com os próprios
profissionais do social um conceito que fosse de fácil entendimento sobre o
social. Geralmente quando se fala sobre o social, o que vem à mente das pessoas
é uma relação com carência, dificuldade e não potencialidade, isso faz com
que pessoas relacionem o social com problemas e o assistente social não tem uma
graduação para administrar problemas ele tem de ter uma atuação proativa,
que só acontece se o profissional tiver o foco na potencialidade do ser humano.
Essa potencialidade existe, mas
muitas vezes não está bem trabalhada ou não existe a oportunidade das pessoa
a colocarem em prática, que são habilidades que a pessoa não exerce no seu
trabalho ou no seu espaço de convivência. Então, nós primeiro tentamos
situar o social como resultado de interações, das quais sairão produtos e
esses produtos que são apelidados de problemas sociais. O produto social só
será problema se as interações forem estabelecidas em uma situação adversa,
que pode ser o próprio meio ou condições internas
a cada um dos seres humanos. Essa é uma questão que nós achamos
fundamental para que se possa valorizar quem trabalha com o social. O assistente
social a princípio não trabalha com problemas, mas sim com a potencialidade do
ser humano, que pode vir a se tornar problema se não for usada adequadamente.
JC - O social é tão importante quanto qualquer outro departamento de uma
organização empresarial?
Jorgete - Nós focalizamos onde o social acontece, ou seja, em todos os
espaços, em todas as organizações humanas. Onde houver ser humano vai haver
interação e haverá o social. Mais especificamente nas organizações
empresariais, como se faz essa gestão? A história do Serviço Social nas
empresas o situou como um setor de atendimento aos funcionários numa situação
de dificuldade, então a imagem que fazem do assistente social é a do
profissional que está lá para resolver problemas ou para fazer a
intermediação entre o empregado e a chefia. Essas são imagens que não são
corretas, mas não corretas porque a prática as manteve nesse
"status", então o que se propõe hoje é que o social seja uma
questão estratégica tanto quanto é a questão financeira para a empresa, tanto
quanto é a questão de mercado, por exemplo.
JC - Como fazer essa ligação entre as ações sociais com a estratégia da
empresa?
Jorgete - A empresa precisa definir suas estratégias, elaborá-las. Depois
de definidas as estratégias é que o profissional do Serviço Social deve
fazer um "link" para ver onde a empresa quer chegar, ela quer crescer,
quer desenvolver, quer ter um status ou está sobrevivendo apenas? Se um
profissional não consegue saber em que estágio a estratégia da
empresa está, ele tem dificuldade de propor ações então muitas vezes
as ações propostas não estão alinhadas com o momento estratégico da
empresa. Não dá para falar de um plano de Serviço Social numa empresa sem
fazer o "link" com o planejamento estratégico daquela empresa.
JC - Como o profissional do social descobre as potencialidades das pessoas
nas organizações, como é a sua postura?
Jorgete - Essa nova postura parte da identificação de uma análise do
ambiente. Ele tem de conhecer a cultura da empresa, que são seus valores
organizacionais e antes de mais nada enxergar a empresa como uma organização
humana, não é a pessoa jurídica que ele está analisando. Então é preciso
saber quais os valores da empresa e esses valores precisam ser passados para
todos os empregados da empresa. O profissional então deve fazer uma leitura do
ambiente da cultura da empresa, que são um conjunto de valores expressos
por atitudes, por comportamentos de quem dirige essa empresa. Depois que ele tem
esses valores identificados ele tem de fazer o mesmo com os empregados e
analisar a sua cultura é o que chamamos de diagnóstico do perfil social.
Então no final você tem valores organizacionais de um lado e valores dos
empregados do outro. Pode haver uma sintonia perfeita ou pode haver uma
disfunção, algum tipo de desalinhamento, então o profissional, em cima desses
dois estágios, deve traçar um plano para que haja uma alinhamento.
JC - Um equilíbrio de valores e idéias?
Jorgete - Equilíbrio é a palavra perfeita porque não um adaptação.
Porque os empregados têm um valor e a empresa tem outro, você não vai ajustar
um ao outro, mas vai fazer um trabalho de sensibilização entre as partes
para haver um equilíbrio. É dessa forma que o profissional deve agir,
analisando o ambiente, pesquisando e documentando e até fazendo confronto de
idéias de outros profissionais porque ele não deve trabalhar sozinho,
ele deve ser integrado com uma equipe multidisciplinar. Várias disciplinas
juntas analisando mesmo ambiente definem um planos de ação.
JC - Essa visão do Serviço Social é uma tendência nova?
Jorgete - Isso já vem sendo praticado, não é nada novo. Muitos
profissionais do Serviço Social já atuam desta forma, mas o que ainda
está mais forte na cabeça dos clientes é a idéia do assistente social como
profissional para atender as carências ou para socorrer em situações de
emergência, essa eu diria que é o posicionamento mais forte que ainda está
impedindo que essa outra postura sobressaia. então nós precisamos reposicionar
a imagem do Serviço Social, o que significa não negar a idéia
existente, mas mostrar essa nova face com resultados. Não adianta empunhar uma
bandeira sem mostrar os resultados concretos, então esse reposicionamento passa
por uma mudança de imagem na mente do cliente mas com ações concretas
mostrando uma nova forma de ser.
Fonte: Jornal da Cidade