Primeira brasileira a tornar-se mestra e doutora em psicoterapia de pessoas
enlutadas, a psicóloga Maria Helena Bromberg, 48 anos, até há pouco tempo era
vista por pacientes e até colegas como uma espécie de "Mortícia Adams". Ela se
dedica há uma década à pesquisa sobre a morte e suas consequências nos vivos.
Professora da disciplina Luto e Morte na Família e orientadora do pós-graduação
de Psicologia da PUC de São Paulo, ela dirigiu a clínica Ana Maria Popovic,
também da PUC, onde criou o Laboratório de Estudos e Intervenções Sobre o Luto (LELu).
Para ela, não é somente a morte que causa a dor do luto. "Nos enlutamos diante
de pequenas perdas ao longo da vida, a começar pelo desmame de nossa mãe",
explica. Maria Helena é discípula do terapeuta inglês Colin Murray Parkes, a
maior autoridade em pesquisas sobre luto no mundo, cujos livros só podem ser
traduzidos para o português por ela. Autora de A psicoterapia em situações de
perdas e luto, Maria Helena também trata "lutos" por aposentadoria, imigração,
amputação e aborto. Hoje dedica-se também à pesquisa sobre o luto coletivo, seja
por morte de ídolos ou pela violência que vem tornando os cidadãos cada vez mais
enlutados. Ela reconhece que não é fácil, mas há saídas. "É possível conviver
com os lutos e ser feliz", acredita.
Por
que a sra. se especializou nesse assunto?
Maria Helena Bromberg –
Comecei a me perguntar por que as pessoas são tão apegadas a ponto de não
sobreviver à morte ou à perda de alguém. Perdi minha mãe quando era pequena, um
irmão já adulta, a quem eu era muito apegada. E, recentemente, minha irmã. Tenho
um histórico respeitável.
Estudar a morte lhe deu preparo para enfrentar as perdas?
Maria Helena – A saudade dói do
mesmo jeito, mas tenho um conforto porque, quando enfrentamos a morte,
aprendemos a aproveitar melhor a convivência em vida.
Por
que as pessoas temem esse assunto?
Maria Helena – É a única certeza
que se tem, mas nossa cultura não incorpora a morte como parte da vida. Pensa-se
nela como castigo e é comum ouvirmos comentários como: "Ele era tão bom, por que
morreu?" Morte é afastamento, silêncio, nunca mais.
Em
que idade nos damos conta de que a morte é inexorável?
Maria Helena – Desde que nascemos
sofremos perdas e lutos, não necessariamente ligados a mortes. A psicanálise
acredita que a criança vive seu primeiro luto ao ser desmamada pela mãe. Depois,
ouve ameaças de perdas como "Mamãe vai embora", "Você vai ficar de castigo". Há
semelhança da ausência, da falta, com o final da vida.
Somos ensinados a não considerar a morte como fato?
Maria Helena – Na cultura
ocidental sim. Talvez por conta do pecado original. Pressupõe-se que se fez algo
horrível e a morte é a punição. Adão e Eva, depois de cederem ao pecado, foram
castigados tornando-se mortais. Há ainda o medo do desconhecido. Pacientes
terminais querem saber o que vai acontecer quando a vida acabar. Os que se
apóiam em alguma crença se sentem de alguma forma amparados.
Quais são as outras perdas que geram o luto?
Maria Helena – Toda perda gera
luto. O divórcio, a aposentadoria, a imigração, a mutilação, o aborto, a
menopausa, a impotência.
Por
que a imigração?
Maria Helena – As pessoas
chegam a um novo lugar, perdem suas raízes, sua identidade e sua independência.
Estamos estudando o comportamento dos dekasseguis, quando voltam ao Brasil. Há
muitos traumas.
Que
tipo de luto gera a aposentadoria?
Maria Helena – A perda da
identidade. O aposentado perde a área de influência. A casa funcionou durante 30
anos sem que ele desse palpites. No começo é uma lua-de-mel. A pessoa fica
exultante e diz que agora vai viver. Engana-se. Atuava no trabalho, não atua
mais. Em casa, ninguém o ouve. Então vai jogar dominó. É comum adoecer.
E
por amputação?
Maria Helena – Causa reações
variadas. No amputado falta literalmente uma parte. Ele tem que fazer uma
transição para se aceitar sem aquele pedaço.
O
velejador Lars Grael, que sofreu a amputação de uma perna, evitou o luto?
Maria Helena – Pela imprensa,
notei que a coisa mais importante no processo dele foi a luta pela
sobrevivência. Ele permanece ativo, que é uma forma de não ficar velando a
perda. Avaliamos uma tese sobre amputação, que concluiu que o desafio é se
adaptar à prótese. Há lutos complicados em acidentados que não podem usar
próteses ou que ficam paraplégicos.
Qual é o medo maior, morrer ou perder alguém?
Maria Helena – Difícil dizer.
Quando uma mãe diz que morreria no lugar do filho, não pensa que se fosse ela o
filho sofreria. Além do temor, há culpas, ressentimentos, medo do futuro sem a
pessoa. São emoções ambíguas, impasses.
Por
que muita gente adoece por luto?
Maria Helena – Por conta das
ocorrências psicossomáticas. As manifestações mais frequentes são os distúrbios
de sono e de alimentação. Depende do grau de enlutamento. Do que afeta no
cotidiano. Alguns enlutados não conseguem mais trabalhar. Outros, apresentam
distúrbios de atenção e memória. Há pessoas que ficam suscetíveis a acidentes.
Crianças podem apresentar problemas na escola.
O
temor da morte tem idade?
Maria Helena – Não. Todos
tentam evitar o assunto, até discriminam. Inúmeras vezes pessoas me olharam como
se eu fosse uma pessoa nefasta. Pensam que sou gótica, dark. Mas não sou nada
disso. Sou uma pessoa normal.
Criança lida melhor com o luto?
Maria Helena – Pode ser, mas é
necessário que ela conceitue o que é morte. Absorva aspectos como
universalidade. Ou seja, todos vamos morrer. Também a irreversibilidade: quando
morre, não "desmorre". E por último a causalidade. Isto é, morreu porque
aconteceu alguma coisa. A criança consegue integrar isso no começo da
adolescência. Antes, ela pode achar que rezando a pessoa desmorre. Ela tem
exemplos nos desenhos animados ou joguinhos virtuais. Seus heróis têm muitas
vidas. É importante dizer à criança que o jogo é legal, mas não é real. Os
adultos não favorecem essa percepção e preferem evitar o assunto.
Por
que o adulto faz isso?
Maria Helena – Muitas vezes
por medo ou por não saber o que dizer. Ele pode estar enlutado também. Se há uma
perda na família, a criança tem que ser comunicada. Para o adulto fragilizado,
falar é difícil. Na percepção global, morte é uma coisa não cotidiana, e o
adulto tende a achar que não é assunto de criança. Mas ela quer esclarecimentos.
Esclarecer torna a criança mais preparada?
Maria Helena – Sim. O adulto
tende a subestimar as perdas infantis. A queda do sorvete ou a quebra do
brinquedo, em termos de dor, é incomparavelmente menor frente à perda de alguém
querido, mas é uma situação que faz a criança pensar sobre limites, frustração e
reversão de expectativa.
Qual o pior tipo de luto?
Maria Helena – Há quatro
aspectos: a pessoa que morreu, o tipo de morte, o suporte psicossocial que o
enlutado tem e a sua estrutura psíquica. Se tem histórico de perdas, os
problemas psíquicos podem incapacitá-lo para enfrentar mais essa. Julga-se que o
luto mais difícil é o da morte de filho por suicídio. Mas como diz a música de
Caetano Veloso, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.
A
morte de um bicho de estimação pode ser tão devastadora?
Maria Helena – Pode, só que aí
entra na categoria de luto não franqueado. Esse luto espanta. "Onde já se viu
chorar tanto por um cachorro. Se ainda fosse um filho vá lá", costumam dizer.
Há
outros lutos assim?
Maria Helena – A perda do
parceiro por Aids também não tem receptividade. Morte do ou da amante. O aborto
(provocado ou não), que é visto como um não evento.
Como assim?
Maria Helena – No aborto não
aconteceu o nascimento nem a morte convencional. A reação das pessoas é
minimizar a perda. Falam: "Não se preocupe, logo você tem outro." Fizemos uma
pesquisa com 60 mulheres adultas que tinham abortado na adolescência. Isso
redundou até em esterilidade. A mulher pode ter um trauma psicológico e não
engravidar novamente.
O
luto não autorizado influencia a futura mãe?
Maria Helena – Sem dúvida. Atendi
uma família que trouxe a filha adolescente para a terapia por achar que ela
estava rebelde. Na entrevista com mãe e filha ficou clara a dificuldade de
relação entre elas. A mãe não se sentia confortável. Superficialmente, pareciam
conflitos típicos de adolescente, mas havia algo mais. O segredo era um aborto
que a mãe fizera antes de a menina nascer, um luto que a mãe carregava ainda.
E
como tratar isso?
Maria Helena – Mais profundamente
com a mãe. Ao fim ela resolveu revelar o segredo e livrou-se do peso. Parece
mágico, mas não é. Foi um processo longo e doloroso para ambas, o que dá para
dimensionar como a coisa se arrasta.
Existe um tempo padrão para superar o luto?
Maria Helena – Essa é uma questão
temerária. Pode-se achar que morrer ou perder alguém acontece numa boa porque o
tempo é o melhor remédio.
E
não é?
Maria Helena – O tempo ameniza a
dor, mas também é capaz de gerar um luto crônico. O que poderia ser uma passagem
de um estado para outro, pode permanecer na tristeza. No luto crônico, quanto
mais o tempo passa, pior fica. É também chamado de luto complicado.
Há
mais tipos de luto complicado?
Maria Helena – Tem o adiado,
aquele que a pessoa diz que está bem, não encara o sofrimento, chega a ficar
eufórico. Um dia morre o peixinho da irmã da vizinha e ela desaba.
Não
existe o luto adiado para sempre?
Maria Helena – Não. As pessoas
têm que realizar suas perdas. Há um estudo feito na Inglaterra, a partir dos
prontuários de pacientes psiquiátricos, em que se pesquisou a vida deles. Havia
uma alta incidência de perda de pai ou mãe na infância. Eram pacientes com
quadros psiquiátricos severos. Este é um exemplo de que o luto não realizado
pode se manifestar não só na tristeza padrão, mas em doenças psiquiátricas. É
diferente do luto distorcido, em que a pessoa aparenta estar bem, mas não está.
Tem filhos para criar, trabalho e não consegue dar conta de tudo. Então
disfarça.
E
sobre o tempo de duração do luto?
Maria Helena – Trabalhamos por um
parâmetro de um ano, mas não é regra. Há datas marcantes como o primeiro
aniversário da pessoa que morreu. O primeiro Natal, etc. São situações de
celebração que, depois da perda, marcam a ausência. Isto é positivo porque faz
com que a pessoa se dê conta da realidade da perda. É importante que essas datas
não sejam negadas. Quando completa um ano da morte, acontece um fenômeno chamado
"reação de aniversário". Revive-se o ano que passou, a dor. Se perguntam por que
estavam melhor e a dor voltou com tudo?
E a
partir daí muda a relação com a perda?
Maria Helena – Do ponto de vista
da terapia, é muito importante que se possa trabalhar o enlutado durante o
primeiro ano da perda para o terapeuta estar junto nesses momentos. Do ponto de
vista clínico, é muito mais complicado quando o enlutado chega ao consultório
depois de cinco, dez anos da perda. As coisas estão mais cristalizadas. Quando
entra no segundo ano, faz um certo platô emocional, sem que tudo tenha sido
elaborado.
Então, depois de uma grande perda, é possível ser feliz?
Maria Helena – É claro, mas
precisa ressaltar que o enlutado odeia pensar que vai esquecer o ente que
morreu. Ele não pode nem quer esquecer. A terapia trabalha na transformação
dessa ausência numa memória. Porque o morto vive na memória de quem conviveu com
ele. Esquecer é aterrorizante porque é não ter mais. A memória é saudável.
E
por que algumas pessoas não se recuperam? Há quem tenha morrido de tristeza. A
terapia pode reverter isso?
Maria Helena – Depende do tipo de
relacionamento que a pessoa tinha com o morto. Tem dependência que se manifesta
em coisas sutis do cotidiano, que no dia-a-dia não se percebe. Há viúvas, por
exemplo, que não sabem sequer que roupa usar, que nunca tomaram decisões com
relação à família. Era sempre o marido quem fazia. Muitas vezes tem um lado
fraco e um forte. Se o fraco morre, o outro vai precisar de alguém que substitua
aquela dependência que classificamos de cuidadora.
E
as pessoas que desabrocham depois de enviuvar?
Maria Helena – A sociedade é
muito crítica em relação à viúva bem mais do que ao viúvo. Pode ser um luto
bem-resolvido ou nos levar a pensar no que aquele casamento representava. Podia
representar opressão. Ela solta seus grilhões. Atendi muitas mulheres que
floresceram depois de enviuvar. Elas constroem uma nova identidade. É saudável
perceber que depois de uma perda a pessoa fica diferente. Quando ela busca ser
como era antes, se coloca num caminho impossível.
E
os lutos coletivos, como foram os de Ayrton Senna e Lady Di?
Maria Helena – Há dois
aspectos. Um é o do papel da mídia na intensificação desses lutos. O outro é a
dor da perda do ídolo refletida na vida de cada um. Quando o Senna morreu,
choramos nossas perdas, pequenas e grandes. Perdas relacionadas ao orgulho de
ser brasileiro, aos fracassos de cada um. A perda do filho que tinha a mesma
idade dele. Fui à Inglaterra para os funerais da princesa Diana. O choro daquela
gente não era só porque a princesa era querida. Mulheres choraram seus lutos
pela princesa e por maridos inoperantes, traidores, jovens choraram por pais
omissos. Cada um deságua seus lutos quando um ídolo se vai. Ainda que
inconscientemente.
Fonte: Revista Isto É - Psicóloga
Maria Helena Bromberg